Carlo Ancelotti chegou à Seleção Brasileira cercado por expectativas. Afinal, trata-se de um dos técnicos mais vitoriosos da história do futebol. São cinco títulos da Liga dos Campeões, além de conquistas nacionais na Espanha, Itália, Alemanha e Inglaterra. O currículo é indiscutível.
Mas existe uma pergunta que faço desde a eliminação do Brasil: alguma vez Ancelotti precisou reconstruir uma equipe?
Ao longo da carreira, ele sempre trabalhou em clubes de elite, com elencos repletos de estrelas e orçamentos praticamente ilimitados para contratar. Na Seleção Brasileira, porém, o cenário era completamente diferente. Pela primeira vez, recebeu uma equipe em reconstrução, sem uma base consolidada e precisando criar uma identidade.
Na minha avaliação, ele não conseguiu cumprir essa missão.
Os amistosos antes da Copa do Mundo já davam sinais disso. A cada partida, uma escalação diferente. Não existia um time titular definido, nem um modelo de jogo consistente. O Brasil até venceu o Haiti, mas esse resultado mascarou problemas que apareceram diante de adversários mais organizados.
Contra o Japão, vi uma Seleção que aceitou ser dominada em diversos momentos da partida, abrindo mão da posse de bola e da iniciativa do jogo. Depois, diante da Noruega, o cenário foi ainda pior.
Com todo o respeito aos noruegueses, que contam com jogadores importantes como Haaland, Sorloth e Odegaard, não consigo entender como o Brasil aceitou ser pressionado física e tecnicamente durante boa parte da partida. Vi uma Seleção retraída, presa à defesa, sem criatividade e completamente distante da essência do futebol brasileiro.
Sempre enxerguei o Brasil como referência mundial no futebol ofensivo, no drible, na criatividade e na ousadia. Sob o comando de Ancelotti, encontrei justamente o oposto: uma equipe que preferia esperar o adversário, sem padrão ofensivo, sem organização defensiva e, principalmente, sem identidade.
A eliminação acabou sendo consequência natural desse trabalho.
Outro ponto que me chamou atenção foi a insistência do treinador em suas convicções. Para mim, Ancelotti morreu abraçado com a proposta de um futebol excessivamente defensivo. Até a convocação de Neymar, na minha visão, só aconteceu depois da enorme pressão exercida pela opinião pública.
Também considero que alguns jogadores que viviam grande fase no futebol brasileiro ficaram injustamente fora da lista. Na minha opinião, atletas como Matheus Pereira, Andrés Pereira, Gerson e Pedro mereciam oportunidades pelo desempenho apresentado em seus clubes.
Ao mesmo tempo, algumas convocações me deixaram a impressão de que o mérito esportivo não foi o principal critério. Na minha avaliação, Danilo, Alexsandro e Lucas Paquetá não viviam momento suficiente para justificar presença na Seleção. A impressão que ficou para mim foi a de escolhas que pareciam mais comerciais ou influenciadas por interesses de grupos ligados ao Flamengo do que propriamente pelo desempenho em campo. Ressalto, porém, que essa é uma opinião baseada na leitura que faço das convocações, e não em informações que comprovem esse tipo de influência.
Outro aspecto difícil de compreender foi o número de atletas convocados que praticamente não receberam oportunidades durante a Copa do Mundo. Se não fariam parte dos planos, talvez fosse mais coerente levar jogadores que atravessavam melhor fase e poderiam contribuir dentro de campo.
Ancelotti continuará sendo um dos maiores treinadores da história do futebol. Seus títulos falam por si. Mas, para mim, ficou evidente que comandar uma seleção em reconstrução exige desafios diferentes daqueles encontrados em clubes milionários.
Ao final desse ciclo, minha sensação é que a Seleção Brasileira terminou exatamente como começou: sem identidade, sem padrão de jogo e ainda distante de reencontrar o futebol que sempre fez do Brasil uma potência mundial.








